Cada decisão sobre corpo, tampa e rótulo impacta diretamente na reciclabilidade e na atratividade dessa embalagem para o mercado pós-consumo. Por isso, profissionais de design, engenharia, marketing e desenvolvimento de produtos precisam enxergar o projeto de embalagem como um elo estratégico da economia circular.
Segundo as diretrizes para a reciclabilidade da garrafa PET, da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), atualizada em 2024, a atenção a esses três elementos é imprescindível para garantir que a embalagem seja não somente reciclável, mas também efetivamente reciclada.
Corpo
O corpo da garrafa tem como função principal proteger o produto envazado. Quando bem planejado, preserva a qualidade do PET e amplia suas aplicações no ciclo pós-consumo, inclusive em bottle-to-bottle, quando o material reciclado volta a ter contato com alimentos e bebidas.
Boas práticas:
- Preferência pelo uso de resina PET transparente e sem cor, que possui maior aceitação e versatilidade;
- Estrutura que permita compactação após o consumo, reduzindo o volume no transporte e facilitando a logística reversa;
- Aditivos, pigmentos ou acessórios devem ser usados com cautela, respeitando normas da Anvisa e garantindo que não contaminem o material.
Embalagens com cores escuras, barreiras químicas ou acessórios não compatíveis reduzem o valor comercial do fardo de PET e podem até inviabilizar sua reciclagem.
Tampa
Apesar de menor em volume, a tampa pode ser um ponto crítico no processo de reciclagem. Isso se dá porque sua composição pode facilitar a separação do PET ou, ao contrário, gerar contaminações difíceis de remover.
Diretrizes principais:
- Optar por plásticos com densidade inferior a 1,0 g/cm³ (como PE ou PP), que flutuam em solução aquosa e se separam facilmente do PET;
- Dar preferência a tampas incolores, visto que tampas escuras ou de resinas especiais podem comprometer a pureza do reciclado;
- Evitar o uso de alumínio, ligas metálicas ou PVC/EVA em vedantes, que não se separam no processo e prejudicam a reciclagem;
- Em tampas presas ao gargalo, garantir que o material também siga critérios de reciclabilidade.
Em resumo: uma tampa mal projetada pode comprometer um lote inteiro de PET reciclado.
Rótulo
O rótulo é fundamental para transmitir informações legais e de marketing, ao mesmo tempo em que também desempenha um papel decisivo na reciclabilidade. O desafio está em comunicar bem sem atrapalhar a reciclagem.
Melhores práticas incluem:
- Usar materiais com densidade inferior ao PET (como PE ou PP), removíveis em meio líquido;
- Evitar materiais como PET, PETG, PVC, papel ou laminados metálicos, que dificultam ou inviabilizam a separação;
- Optar por sleeves em poliolefinas (PE/PP) ou rótulos em BOPP facilmente removíveis;
- Aplicar cola de forma parcial, para que o rótulo possa ser retirado sem deixar resíduos no corpo;
- Não usar impressão direta no corpo da garrafa, prática que compromete a qualidade do PET reciclado.
A lógica é simples: quanto mais fácil for separar o rótulo, maior será a chance de o PET ser reciclado em aplicações de alto valor.
Design da embalagem como decisão estratégica de negócio
Além da obrigação ambiental, a reciclabilidade deve ser vista como um fator de crescimento e diferenciação competitiva. Embalagens bem projetadas são mais valorizadas no mercado de reciclagem, reduzem custos na cadeia de logística reversa e ajudam empresas a atenderem às exigências de reguladores, consumidores e investidores.
Pensar em corpo, tampa e rótulo de forma integrada é, portanto, uma decisão de negócio. Isso significa:
→ Eficiência operacional: embalagens desenhadas para reciclagem retornam ao ciclo produtivo com maior facilidade, reduzindo perdas e aumentando a disponibilidade de PET reciclado;
→ Valor de marca: empresas que adotam o design para reciclabilidade fortalecem sua reputação em sustentabilidade e se diferenciam no mercado;
→ Inovação com impacto: cada ajuste técnico, da cor da resina à escolha do adesivo do rótulo, pode transformar um passivo ambiental em um ativo circular.
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